Melão-andino

Solanum muricatum

Raquel Patro

Atualizado em

Melão-andino - Solanum muricatum Pepino-doce

O Melão-andino (Solanum muricatum), também conhecido como pepino-doce ou muricato, é um arbusto perene de pequeno porte, cultivado principalmente por seus frutos doces, saborosos e ornamentais, de coloração amarela com estrias arroxeadas. Sua folhagem verde-escura e o formato ovalado dos frutos tem grande valor decorativo em jardins, hortas urbanas e até mesmo em projetos paisagísticos maiores, especialmente em regiões de clima subtropical e tropical. Além do apelo visual, destaca-se pela produção de frutos refrescantes e aromáticos, bastante apreciados em mercados locais e ainda raros nas grandes redes de supermercados. Em função da facilidade de cultivo e rápido desenvolvimento, tornou-se uma escolha interessante para jardineiros que buscam espécies exóticas e versáteis para cultivar na horta ou jardim.

O nome científico Solanum muricatum deriva do latim: ‘Solanum‘ e refere-se ao gênero que inclui diversas espécies populares de Solanáceas, como tomate, a batata e a berinjela, sendo um termo utilizado desde a Antiguidade para designar plantas do grupo das solanáceas. O termo vem do latim solamen, que significa “consolo, alívio”, uma alusão ao efeito de produzir sonolência e reduzir a dor, provavelmente em referência às propriedades da Beladona (Solanum nigrum). Já o epíteto específico ‘muricatum‘ significa ‘com espinhos’ ou ‘espinhoso’, aludindo à presença de pequenas protuberâncias ou asperezas em partes da planta, embora o melão-andino não seja notoriamente espinhoso como outras espécies do gênero. A escolha desse epíteto pode estar relacionada a características observadas nos primeiros exemplares selvagens descritos por William Aiton, no século XVIII, antes do melhoramento e seleção modernos.

Originário da região andina da América do Sul, o Solanum muricatum é nativo de países como Peru, Chile, Colômbia e possivelmente Equador e Bolívia. Seu habitat natural compreende vales interandinos, áreas costeiras temperadas e altitudes que variam do nível do mar até cerca de 3.000 metros. Prefere ambientes com temperaturas amenas, boa luminosidade e solos bem drenados, sendo adaptável tanto a cultivos ao ar livre quanto em estufas. Embora não seja encontrado em estado verdadeiramente selvagem atualmente, seu cultivo milenar nessas regiões evidencia sua importância agrícola e cultural desde tempos pré-colombianos.

O melão-andino cultivo protegido.
O melão-andino em cultivo protegido.

O melão-andino é um subarbusto semilenhoso, de textura predominantemente herbácea a levemente lenhosa na base, com porte que geralmente atinge entre 1 e 2 metros de altura e largura variável. Suas raízes são superficiais e bem ramificadas, favorecendo a absorção eficiente de água em solos bem drenados. Os caules apresentam coloração esverdeada a arroxeada, diâmetro médio de 1 a 2 cm, textura lisa quando jovens e tornam-se levemente sulcados ou estriados com o passar do tempo. A planta possui crescimento ereto a semiprostrado, com ramificação abundante desde a base, formando touceiras densas e volumosas.

As folhas do melão-andino são simples, alternas e apresentam formato ovalado a elíptico, podendo ser inteiras ou levemente lobadas em algumas variedades. Os pecíolos são evidentes, medindo de 2 a 6 cm de comprimento, sustentando lâminas foliares de 10 a 15 cm de comprimento por 4 a 8 cm de largura. A coloração das folhas é verde-médio a verde-escuro na face superior e mais clara na inferior, com nervuras bem marcadas e bordas inteiras ou suavemente onduladas. As folhas são persistentes ao longo do ano em condições favoráveis, possuem textura fina a medianamente coriácea e superfície ligeiramente pubescente, conferindo aspecto fosco ou discretamente áspero ao tato.

O Solanum muricatum é uma espécie monóica, apresentando flores hermafroditas dispostas em inflorescências do tipo cimeira axilar. A floração ocorre principalmente na primavera e verão. As inflorescências são compostas por grupos de três a sete flores localizadas nas axilas das folhas superiores; as flores possuem simetria radial (actinomorfas), cálice pequeno e corola estrelada de coloração predominantemente lilás-claro a violeta-pálido com manchas arroxeadas ou azuladas.

Detalhe das flores da planta
Detalhe das flores da planta

A polinização ocorre principalmente por insetos (entomofilia), embora o fruto possa se formar por partenocarpia. O fruto é uma baga, que pode adquirir forma ovalada, elipsoidal, cônica, de coração ou arredonada, de acordo com a cultivar. Ele tem cerca de 10 a 15 cm de comprimento por até 8 cm de largura, semelhante em tamanho a um ovo de ganso, com casca lisa amarelo-dourada e estrias púrpuras quando maduro; é comestível e bastante apreciado, com textura suculenta, sabor doce e refrescante, que lembra uma mistura de melão (Cucumis melo), pera (Pyrus communis) e pepino (Cucumis sativus). Suas sementes são pequenas, achatadas, amareladas e numerosas no interior da polpa.

Há muitas variedades e cultivares de Melão-andino (Solanum muricatum) que apresentam grande variedade de cores, formas, sabor, textura, porte e de cultivo, selecionadas para diferentes condições climáticas e de mercado:

  • ‘El Camino’ – Frutos grandes, ovais, com polpa suculenta e sabor adocicado, resistente a doenças e muito difundido no Chile.
  • ‘Sweet Long’ – Fruto alongado, amarelo-claro, com estrias roxas marcantes; apreciado pelo sabor suave e resistência ao transporte.
  • ‘Kawi’ – Variedade neozelandesa de porte compacto, ideal para cultivo em vasos ou estufas.
  • ‘Pepino Gold’ – Frutos arredondados de coloração amarela intensa, alta produtividade e boa conservação pós-colheita.
  • ‘Purple Torpedo’ – Apresenta estrias púrpuras mais pronunciadas na casca, formato cônico, sendo valorizada para consumo in natura.
  • ‘Putumayo’ – Esta variedade é cultivada no sul da Colômbia e produz frutos deliciosos, grandes e alongados.
  • ‘Suma’ – Variedade com perfil aromático distinto e resistência a doenças.
  • ‘Colossal’ – Cultivar comercialmente produzida nos Estados Unidos, conhecida por suas características de armazenamento.
  • ‘Misky Prolific’ – Variedade comercial produzida nos Estados Unidos, desenvolvida para produção em larga escala.
  • ‘Toma’ – Cultivar com potencial de armazenamento prolongado.
  • ‘Sweet Round’ – Variedade desenvolvida através de programa de melhoramento na Espanha, redondo e aromático.
  • ‘Golden Globe’ – Fruto redondo e amarelo, variedade com aroma distinto e potencial de armazenamento sob atmosfera controlada.
  • ‘Puzol’ – Cultivar desenvolvida através de programa de melhoramento na Espanha, específica para saladas e com características de partenocarpia (não necessita polinização).
  • ‘Valencia’ – Variedade desenvolvida através de programa de melhoramento na Espanha, com alta qualidade de frutos e boa capacidade de armazenamento sólido solúvel.
  • ‘Turia’ – Variedade desenvolvida para saladas através de programa de melhoramento na Espanha.
  • ‘Pepo’ – Cultivar desenvolvida para sobremesas através de programa de melhoramento em Israel.
  • ‘Becky’ – Com frutos pequenos, do tamanho de cerejas, e sabor suave, desenvolvida em Israel.
  • ‘Rosy’ – Variedade de alto rendimento e sabor suave, desenvolvida em Israel.
  • ‘Hannah’ – Variedade de tamanho médio com alto conteúdo de açúcares solúveis e sabor que lembra “pêssego”, desenvolvida em Israel.
  • ‘Nitza’ – Cultivar de frutos grandes e aroma similar a “banana”, desenvolvida através de programa de melhoramento em Israel.
  • ‘Tally’ – Desenvolvida em Israel, esse fruto tem textura parecido com “maçã”.
  • Além destes podemos citar as cultivares ‘Comeraya’ (Nova Zelândia), ‘Lincoln Gold’, ‘Asca’ (Nova Zelândia) e ‘Schmidt’ (Chile)
Alguns diferentes tipos de frutos
Alguns diferentes tipos de frutos de pepino doce

O Pepino-doce é uma fruta tradicionalmente consumida fresca em países andinos, onde também aparece em sucos, sobremesas e saladas. Sua polpa é rica em água (cerca de 92%) e contém vitamina C, A e carboidratos. Além de seu uso na alimentação, extratos do fruto são empregados na indústria cosmética como emoliente da pele em cremes hidratantes.

O melão-andino carrega em si milênios de história nas terras altas da América do Sul, eternizado nas cerâmicas das antigas civilizações Moche (100-800 d.C.), Chimú e Paracas que povoaram o que hoje conhecemos como Peru. Pertencente à complexa família Solanaceae que também abriga plantas altamente tóxicas devido aos seus alcaloides potentes – esta fruta navegou por águas turbulentas durante o período colonial.

Melchor de Navarra, duque de Palata, e vice-rei no Peru, possivelmente influenciado tanto por preconceitos culturais quanto por uma compreensão limitada da diversidade dessa família botânica, levantou suspeitas sobre sua segurança para consumo e proibiu seu uso, alegando que era tóxico para os nativos e, chamando-o de mataserrano. Apesar dessas tensões históricas, o melão-andino persistiu como parte da herança cultural, mantendo-se presente nas tradições alimentares e celebrações populares que ecoam pela Cordilheira dos Andes, conectando as comunidades contemporâneas às suas raízes pré-colombianas.

Cerâmica fitomórfica do Peru pré-contato representando os frutos de Solanum muricatum. Localização: Berlim-Dahlem, Museu Etnológico
Cerâmica do Peru pré-colombiano representando os frutos do Melão-andino. Berlim-Dahlem, Museu Etnológico. Foto de Michael Hermann

Do coração dos Andes, o melão-andino expandiu sua presença global de forma notável: o Chile lidera a produção comercial no Vale Longotoma, enquanto a Nova Zelândia e Austrália Ocidental estabeleceram cultivos em larga escala, contrastando com o cultivo local que ainda predomina em seus países de origem – Colômbia, Peru e Equador. A espécie demonstrou ampla adaptabilidade climática, estabelecendo-se em regiões diversas como as terras altas do Quênia, Israel, Marrocos, Espanha e pequenas áreas no Havaí e Califórnia, expandindo significativamente além de seu habitat andino original. As cultivares comercialmente melhoradas, desenvolvidas principalmente na Nova Zelândia, permitiram que esta fruta anteriormente regional alcançasse mercados especializados no Japão, Europa e América do Norte, transformando gradualmente um produto de nicho sul-americano em uma iguaria sofisticada no mercado internacional.

No paisagismo residencial, o Melão-andino pode ser utilizado como arbusto ornamental de porte médio-baixo ou como planta de preenchimento em canteiros mistos devido ao seu hábito semi-ereto e folhagem verde-acinzentada. Seu valor está associado tanto à produção dos frutos quanto ao aspecto decorativo que eles proporcionam. As flores arroxeadas também tem o seu atrativo, embora sejam mais discretas. A planta se adapta bem a bordaduras de hortas ou jardins comestíveis integrados a projetos paisagísticos que valorizam espécies úteis e ligadas à cultura tradicional andina e sul-americana, saindo um pouco do lugar comum. Quando conduzida sobre suportes leves ou junto a cercas vivas baixas, contribui para a formação de maciços e renques produtivos que atraem polinizadores durante o florescimento.

Melão-andino em feira livre em Trujillo, Perú.
Melão-andino em feira livre em Trujillo, Perú. Foto de Thayne Tuason

Em jardins domésticos ou quintais multifuncionais, o Melão-andino pode ser cultivado associado a espécies como manjericão (Ocimum basilicum) ou calêndula (Calendula officinalis), aproveitando seu ciclo rápido para rotações produtivas. Sua presença agrega valor estético quando plantado em canteiros elevados ou composições com ervas aromáticas. A planta também pode atuar como elemento focal quando plantada em vasos, em hortas ornamentais compactas ou pequenos pomares pelo contraste entre folhagem densa e frutos coloridos durante o verão.

O pepino-doce exige alta luminosidade para seu pleno desenvolvimento, devendo ser cultivado preferencialmente sob sol pleno, mas tolera meia-sombra em regiões de clima mais quente. Adapta-se melhor a climas amenos, subtropicais e temperados, com temperaturas ideais entre 15 °C e 25 °C, sendo sensível a extremos térmicos. Embora algumas cultivares possam ser mais resistentes ao calor. Pode ser cultivado em estufas, protegidos do vento e frio intenso, com produtividade que a 2 a 3 vezes mais do que ao ar livre.

O crescimento pode ser prejudicado por geadas leves, já que danos ocorrem em temperaturas próximas de 0 °C, especialmente em brotações jovens. Temperaturas abaixo de -2,5 °C podem causar desfolha acentuada e comprometer a produção. Ventos fortes podem danificar ramos e frutos, recomendando-se o cultivo em áreas protegidas ou com quebra-ventos. A planta não apresenta boa tolerância à maritimidade excessiva.

Fruto ao corte
Fruto ao corte

Prefere solos férteis, bem drenados e de textura média a leve, ricos em matéria orgânica e com pH neutro (6,5–7,0). Em vasos, recomenda-se substrato para hortaliças enriquecido com composto orgânico e perlita para garantir drenagem eficiente. O Melão-andino é sensível ao encharcamento, que favorece doenças radiculares; por outro lado, períodos prolongados de seca reduzem o vigor da planta e a qualidade dos frutos. As regas devem ser regulares e moderadas, mantendo o solo sempre úmido sem saturação. Em climas secos ou durante a frutificação, aumente a frequência das irrigações.

Apesar de ser uma planta perene, seu cultivo é anual pois perde o vigor com o tempo. Como é sensível a pragas e doenças, convém estabelecer o melão-andino dentro de práticas culturais preventivas, como a rotação de culturas com espécies não solanáceas. O plantio das mudas deve ser realizado em covas bem preparadas, enriquecidas com composto orgânico ou esterco curtido. Recomenda-se adubação inicial rica em fósforo para estimular o enraizamento e adubações de cobertura mensais com formulações equilibradas (NPK ou orgânica) durante o ciclo produtivo.

O tutoramento é importante devido ao porte semi-ereto da planta e ao peso dos frutos; utilize estacas ou treliças para evitar que os ramos toquem o solo. Realize podas leves para remoção de ramos doentes ou mal formados e estimule a ramificação lateral através do beliscamento. A aplicação de mulching orgânico contribui para manter a umidade do solo, controlar plantas invasoras e proteger as raízes contra variações bruscas de temperatura.

Colheita

O melão-andino apresenta sensibilidade elevada a pragas como ácaros, moscas-brancas, pulgões e besouros, além de suscetibilidade a doenças virais como mosaico, doenças fúngicas como oídio e podridões radiculares em condições úmidas. O manejo preventivo inclui inspeção regular das plantas, controle biológico das pragas e uso criterioso de inseticidas naturais quando necessário. Evite o excesso de umidade no solo para prevenir doenças fúngicas e mantenha espaçamento adequado entre as plantas para favorecer a circulação do ar. Animais herbívoros raramente causam danos significativos à cultura. Pode ser sensível a nematoides, exigindo controle adequado e manejo preventivo no solo, como solarização, remoção de restos culturais e outros.

A propagação mais eficiente do melão-andino é realizada por estaquia de ramos semi-lenhosos com cerca de 10–15 cm de comprimento; plante as estacas em substrato úmido sob sombra parcial até o enraizamento completo. A multiplicação por sementes é pouco utilizada devido à baixa taxa germinativa nas variedades cultivadas. O melhor período para realizar estaquias é no final do inverno ou início da primavera, aproveitando temperaturas amenas e maior disponibilidade hídrica. Após o enraizamento das estacas (em torno de 3–4 semanas), transplante-as para o local definitivo. As mudas originadas de sementes podem ser transplantadas quando atingirem cerca de 10 cm de altura. O primeiro florescimento ocorre geralmente em cerca de quatro meses; e os frutos podem ser colhidos cerca de cinco meses após o plantio das mudas.

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Sobre Raquel Patro

Raquel Patro é paisagista, especialista em plantas ornamentais e fundadora do site Jardineiro.net. Desde 2006, desenvolve um trabalho aprofundado em botânica aplicada e jardins, reunindo um dos maiores acervos de jardinagem em língua portuguesa. Hoje, atua com consultorias e projetos paisagísticos baseados na escolha criteriosa de espécies e na longevidade dos jardins.

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