Os jardins de avó

Foto de Bev Wagar
Pode-se tentar classificar esses jardins como um estilo cottage, mas eu gosto mais de chamá-los de jardins de avó. Em sua desordem ordenada, eles possuem elementos de diversos jardins, e sua beleza residia e reside na saúde individual de cada planta, somada a alma de quem os cuidava e construia dia após dia. Era um jardim a ser desvendado em sabores, cores e texturas incompreensíveis à primeira vista. Me sinto privilegiada por ter convivido com avós e tio-avós que amavam as plantas e a jardinagem. Sem sombra de dúvida, eles me influenciaram diretamente na escolha da minha profissão, cada um à sua maneira.

Foto de dailyinvention
Meus avôs maternos moravam em uma deliciosa chacrinha em Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul. Lá tínhamos à disposição um imenso pomar, repleto de goiabeiras, laranjeiras de diferentes variedades, bergamoteiras (ou mexeriqueiras), bananeiras, araçazeiros e pitangueiras, entre tantas frutíferas. Depois dos churrascos de domingo, lá íamos, entre tias e primos, sentar à sombra de uma árvore e chupar umas boas laranjas de umbigo, colhidas do pé. Elas eram doces e ácidas como devem ser, e as devorávamos ainda mornas do sol. Eventualmente, meu avó costumava usar o espaço entre as árvores para roças de mandioca, batata-doce e milho e não raramente víamos florescer muitos pés de abóbora menina que carregavam lindamente de frutos.

A romã rachada no pé. Foto de pixelto
Já meus avôs paternos eram gente da cidade. Não obstante, nessa época mesmo em ambiente urbano, as casas tinham generosos quintais, e ali se amontoavam de forma perfeitamente intencional, a coleção de plantas do meu avô Gerardt e avó Ivone. E o vô pensava como eu penso hoje em diversos aspectos: gostava das coisas raras, daquelas que não se encontram em qualquer lugar. Meu avô costumava me dizer que as romãs só deviam ser colhidas depois de racharem sozinhas no pé. Assim, além de garantir que os pequenos rubis estivessem no máximo de sua doçura, ainda poderíamos dividir a iguaria com os passarinhos que tanto o alegravam. Pelo mesmo motivo, o quintal tinha uma linda e frutífera figueira e uma frondosa cerejeira-do-rio-grande. Naquela época, não se encontravam essas frutas em qualquer supermercado. Era o sabor do jardim do vô e da vó. Com o vô também aprendi a apreciar as bulbosas, começando pelo lírio-sangu-salmão, que ele carinhosamente chamava de estrela-de-natal.

Nos seus tempos áureos, esse jardim era motivo de puro orgulho. Vencia o campeonato anual de “o jardim mais bonito do bairro”. Competições essas que desapareceram completamente, e que eram saudáveis por muitos motivos. Além de estimular a jardinagem, valorizavam o bairro e suas casas, com jardins bem cuidados, aumentando também a auto-estima das pessoas. Exibir os pés de couve com metros de altura, era de deixar o ego inflado.

Foto de photogramma1
Como se não bastasse, ainda tive convivência intima com minha tia-avó. Uma oma de respeito, muito sábia, com seu jardim bem cuidado e planejado, repleto de plantas, frutas e hortaliças diferentes. Me lembro claramente os momentos em que lá tive meu primeiro contato com a samambaia-do-amazonas, a carambola e a flor-de-cera. Raridades desse jardim criado e mantido com carinho pela vó alemã.

As histórias e as plantas são muitas, carregadas de infindáveis memórias de infância. Mas com esses ancestrais tão ligados à terra e à natureza, que chance tinha o meu coração de não se apaixonar por todo esse rico universo? Alguns puristas podem pensar, que esses jardins lembravam mato ou uma bagunça infindável, mas a estética era outra. Não é que tenhamos que construir jardins de avó ao pé da letra. Até por que não é possível, afinal cada um era único e refletia os gostos pessoais, as necessidades e o talento de cada jardineiro proprietário. Mas podemos incorporar em nossos jardins a alma que norteava essas escolhas e o conduzir deste jardim. Eram jardins vivos, mutáveis, que davam orgulho por que tinham sido feitos com as próprias mãos. Podemos aproximar os proprietários da construção de seus próprios paraísos, de forma que reflitam, não somente estética e baixa manutenção, mas que tenham segredos que revelem um pouco da alma de seus donos. Trazê-los para o convívio com a terra, e não apenas delegar ao jardineiro contratado. Fazê-los provar dos frutos, temperos e hortaliças que viram crescer.

Ainda é possível apreciar os jardins de avó em qualquer lugar deste país. Muitos estão abandonados e mal cuidados, mas estão lá pra nos lembrar de uma geração que sabia dar valor às plantas, a terra e a jardinagem.

E o jardim dos seus avós e seus pais, você lembra como era? Vamos fazer este resgate? Comente abaixo deste artigo e sinta a nostalgia percorrer a sua mente. No próximo artigo vou fazer um apanhado geral das plantas ornamentais preferidas pelos avôs e avós na construção de seus espaços. Até lá.

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