Grama-amendoim

Arachis repens

Raquel Patro

Atualizado em

Grama amendoim - Arachis repens

A Grama-amendoim (Arachis repens) é uma forração herbácea perene, rasteira e formadora de tapetes densos, marcada pelas pequenas flores amarelo-ouro que surgem entre a folhagem verde-intensa. Ela conquistou espaço em jardins, pomares, taludes e canteiros por cobrir a terra com rapidez, exigir poucos cortes e ainda colaborar com a fertilidade do solo.

Apesar do nome popular, a Grama-amendoim não é uma grama verdadeira. As gramíneas pertencem à família Poaceae, enquanto esta espécie é uma leguminosa, da família Fabaceae. Recebeu esse nome por ser uma das poucas forrações de folhas largas capazes de fechar o solo com a aparência contínua de um gramado, mas com flores e folhas mais largas.

Origem, habitat e etimologia

A Grama-amendoim é originária do Cerrado, no Brasil, com ocorrência nativa restrita ao estado de Minas Gerais. Cresce em formações abertas e savânicas, muitas vezes nas proximidades de cursos d’água, onde encontra luz abundante, solo com drenagem e umidade disponível em parte do ano.

O nome Arachis vem do grego arachos ou arakos, antigo nome usado para plantas leguminosas. O epíteto repens vem do latim e significa ‘rasteiro’ ou ‘prostrado’. É uma descrição precisa: seus caules se espalham sobre a superfície da terra e criam raízes nos pontos de contato com o solo.

Uso paisagístico da Grama-amendoim

Quando bem instalada, a Grama-amendoim cria uma camada baixa, macia e verde, salpicada por flores amarelo-ouro durante grande parte do ano. É uma escolha valiosa para áreas de contemplação, canteiros amplos, pomares e terrenos inclinados, onde suas raízes ajudam a firmar a terra e seus estolões, caules que crescem deitados, fecham espaços vazios.

O plantio com espaçamento de 0,25 x 0,25 m ou de 0,30 x 0,30 m costuma permitir o fechamento da área entre três e seis meses, conforme a luz, a irrigação inicial e a qualidade do solo. Seu crescimento é rápido e, após formar o tapete, a planta dificulta a germinação de muitas ervas invasoras por sombrear a superfície da terra.

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Ela suporta pisoteio ocasional e costuma rebrotar, mas não conserva boa aparência sob trânsito frequente. Em passagens diárias, a folhagem fica amassada, aberta e com aspecto triturado. Reserve a Grama-amendoim para trechos contemplativos ou de circulação esporádica e, nos caminhos, prefira pisos, placas de pedra ou outras soluções de passagem.

Fica bonita sob árvores como o ipê-amarelo (Handroanthus chrysotrichus) e o pau-brasil (Paubrasilia echinata), desde que o local receba algumas horas de sol. Também pode preencher a base de arbustos como a bela-emília (Plumbago auriculata) e a estrelícia (Strelitzia reginae), deixando o estrato baixo verde e florido. No entorno de estruturas cobertas pelo cipó-de-são-joão (Pyrostegia venusta), protege o solo e cria contraste com a floração alaranjada da trepadeira.

É indicada para jardins tropicais, contemporâneos, funcionais e ecológicos, além de pomares de manejo mais natural e projetos de controle de erosão. Em jardineiras profundas e vasos suspensos com sol, os estolões podem cair pelas bordas e formar uma cortina baixa de folhas e flores. Em propriedades rurais ou locais próximos a áreas preservadas, vale observar a fauna: a massa densa e nutritiva pode atrair lebres e pequenos roedores.

Como cuidar da Grama-amendoim: guia de cultivo

  • Luz: Cultive a pleno sol para obter tapete fechado e floração mais farta. A planta aceita meia-sombra, sobretudo sob copas pouco densas, mas tende a ficar mais aberta e com menos flores. Em locais muito sombreados, os estolões se alongam à procura de luz e a cobertura perde uniformidade.
  • Solo: Prefira solo profundo, bem drenado e de textura franco-arenosa, isto é, com equilíbrio entre areia, argila e matéria orgânica. O pH mais favorável fica entre 5,5 e 6,5. Antes do plantio, revolva a terra, retire invasoras e incorpore composto orgânico, esterco curtido de curral e areia média lavada quando houver excesso de argila. Casca de pinus compostada pode melhorar a estrutura e ajudar a conservar umidade.
  • Rega: Nos primeiros 60 dias, regue com regularidade para que os estolões enraízem em vários pontos. Mantenha a terra úmida, sem poças. Depois de estabelecida, a Grama-amendoim tolera períodos curtos a médios de seca; faça novas regas quando a camada superficial do solo estiver seca. Em calor intenso e solo arenoso, observe o tapete com mais frequência, pois a água se perde rápido.
  • Clima: Desenvolve-se melhor em clima tropical e subtropical, com temperaturas amenas a quentes. Geadas severas queimam as folhas e podem deixar o tapete pardo, sobretudo em áreas expostas. As raízes e os estolões podem rebrotar na primavera se a planta estiver bem estabelecida e o frio não tiver comprometido o sistema subterrâneo.
  • Umidade do ar: Prefere umidade relativa média a alta. Em períodos secos, a irrigação de manutenção reduz o ressecamento das pontas dos ramos e favorece a recuperação do tapete, especialmente em canteiros novos.
  • Adubação: No plantio, use matéria orgânica e uma adubação fosfatada, como NPK 04-14-08, para favorecer a emissão de raízes. No início da primavera, aplique NPK 10-10-10 de liberação lenta conforme a recomendação do fabricante para a área. Como a espécie fixa nitrogênio com auxílio de bactérias nas raízes, adubações nitrogenadas pesadas são desnecessárias e podem aumentar folhas em detrimento das flores.
  • Poda: Não exige cortes frequentes de altura. Faça apenas a contenção das bordas quando os estolões avançarem sobre caminhos, gramados ou canteiros vizinhos. Após frio intenso, um corte de limpeza no fim do inverno, com roçadeira regulada alta, remove folhas danificadas sem raspar o solo e favorece a brotação.

Como fazer mudas da Grama-amendoim

A divisão de ramagem enraizada é o método mais rápido para o jardim. Escolha trechos vigorosos de estolões que já tenham raízes nos nós, os pequenos pontos do caule de onde saem folhas e raízes. Levante esses segmentos com uma pá estreita, preservando um pouco de terra ao redor das raízes, e corte-os em porções com vários nós vivos.

Plante cada muda em solo preparado, firme a terra ao redor e regue logo após o transplante. Nos primeiros dois meses, mantenha umidade regular para que os novos estolões se prendam ao terreno e comecem a avançar. A estaquia também funciona: ramos jovens sem raízes podem ser fixados em substrato leve, mantido úmido, até emitirem raízes.

A propagação por sementes é pouco prática em jardins. Os frutos se desenvolvem enterrados e a colheita exige revolver a terra, por isso esse sistema fica mais associado a produtores especializados. Para uma área residencial, usar ramagens enraizadas traz resultado mais rápido e previsível.

Descrição botânica da Arachis repens

Trata-se de uma herbácea perene, prostrada e estolonífera, com 0,10 m a 0,25 m de altura. Sua extensão lateral é indeterminada, pois os estolões continuam crescendo e enraizando ao longo do solo. A textura é macia ao toque e, em boas condições, os ramos e folhas formam uma massa compacta.

As flores são hermafroditas, ou seja, cada flor reúne as estruturas reprodutivas femininas e masculinas. A planta apresenta raiz principal pivotante, uma raiz central que cresce para baixo a partir da germinação, podendo alcançar cerca de 0,30 m de profundidade. Ao longo dos estolões, produz muitas raízes adventícias fibrosas, que surgem nos nós e prendem a planta ao solo.

Nas raízes podem se formar nódulos associados a bactérias do gênero Bradyrhizobium. Nessa parceria, as bactérias ajudam a transformar o nitrogênio do ar em formas aproveitáveis pela planta. Por isso, a Grama-amendoim é útil como cobertura viva em pomares e áreas onde se busca melhorar a terra com menor dependência de fertilizantes nitrogenados.

Os caules são cilíndricos, finos, flexíveis e crescem rente ao chão. São verdes quando jovens e podem ficar levemente acastanhados com a maturidade. Cada nó que toca solo úmido tem potencial para enraizar, explicando a rapidez com que a espécie ocupa áreas abertas.

As folhas são alternas, compostas e tetrafolioladas, isto é, cada folha tem quatro folíolos organizados em dois pares opostos. Os folíolos são ovados a obovados, com ponta arredondada e margem lisa, medindo de 1,5 a 3,5 cm de comprimento por 1,0 a 2,0 cm de largura. A face superior tem verde-intenso e brilho discreto, enquanto a face inferior apresenta leve pilosidade.

A floração pode ocorrer durante todo o ano em regiões tropicais e subtropicais úmidas, com maior intensidade entre meados da primavera e o fim do verão no Hemisfério Sul. As inflorescências são axilares, surgem nas axilas das folhas, e costumam reunir de uma a três flores ao longo dos estolões.

As flores seguem o padrão papilionáceo típico das leguminosas, lembrando uma pequena borboleta aberta. Medem de 1,5 a 2,0 cm de diâmetro e exibem corola amarelo-ouro intensa; em casos raros, o estandarte, a pétala superior mais ampla, mostra estrias alaranjadas. Abelhas e pequenos besouros realizam a polinização.

O fruto se desenvolve sob a terra por geocarpia, um processo raro em que a flor fecundada produz um ginafóforo, estrutura também chamada de pino, que se curva para baixo e penetra no solo. Ali se forma um lomento articulado, fruto seco dividido em segmentos, de pericarpo fino e pardo. Cada fruto contém uma ou duas sementes oblongas, ricas em óleos e proteínas, que permanecem protegidas no solo e favorecem a regeneração local.

Principais variedades e cultivares

  • Espécie botânica: A comercialização ornamental é feita, em geral, com a própria Arachis repens, sem cultivares ornamentais formalmente nomeadas e registradas. Não confunda com Arachis pintoi, espécie aparentada que possui cultivares como ‘Amarillo’ e ‘Belmonte’.

Pragas, doenças e soluções

A Grama-amendoim é rústica, mas pode apresentar ácaro-rajado, lagarta-minadora, cochonilhas, pulgões, formigas-cortadeiras, tripes, percevejos e nematoides-das-galhas. Examine o tapete com atenção quando houver folhas deformadas, pontos amarelados, aspecto prateado, presença de insetos ou falhas que avançam pela área.

Em focos iniciais de insetos sugadores e ácaros, óleo de neem ou sabão potássico podem ser aplicados conforme a orientação do produto, cobrindo também a face inferior das folhas. Formigas-cortadeiras exigem controle direcionado, pois podem desfolhar áreas inteiras em pouco tempo. Infestações extensas devem ser avaliadas com orientação de engenheiro agrônomo.

Antracnose, ferrugem e apodrecimento das raízes são os problemas sanitários mais associados à espécie. O apodrecimento ocorre sobretudo onde há água parada e pouca drenagem. Corrija o solo, evite irrigação excessiva e mantenha o canteiro limpo de folhas muito comprometidas. Calda bordalesa ou fungicidas à base de cobre podem ser usados na prevenção e no controle, respeitando a indicação do fabricante.

Curiosidades

A geocarpia da Grama-amendoim é o mesmo princípio visto no amendoim comum (Arachis hypogaea): depois da fecundação, a estrutura que sustentava a flor se inclina e leva o fruto para debaixo da terra. Essa estratégia cria um banco de sementes protegido, capaz de ajudar na regeneração da área após seca severa, queimadas ou pastejo intenso.

Como leguminosa, ela contribui para o solo por meio dos nódulos nas raízes. Em pomares, seu tapete reduz o impacto direto da chuva sobre a terra, ajuda a conservar umidade e fornece uma cobertura viva que diminui espaços disponíveis para invasoras. É uma planta de trabalho silencioso: enquanto as flores amarelas aparecem sobre o canteiro, as raízes ajudam a sustentar e enriquecer o solo.

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Sobre Raquel Patro

Raquel Patro é paisagista, especialista em plantas ornamentais e fundadora do site Jardineiro.net. Desde 2006, desenvolve um trabalho aprofundado em botânica aplicada e jardins, reunindo um dos maiores acervos de jardinagem em língua portuguesa. Hoje, atua com consultorias e projetos paisagísticos baseados na escolha criteriosa de espécies e na longevidade dos jardins.

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