Grama-amendoim

Arachis repens

Raquel Patro

Atualizado em

Grama amendoim - Arachis repens

A grama-amendoim (Arachis repens), também conhecida como amendoim-rasteiro ou amendoinzinho, é uma forração herbácea e ornamental nativa do Brasil e amplamente utilizada no paisagismo e na recuperação de solos degradados. Ela se popularizou principalmente por formar densos tapetes, dispensar podas frequentes e contribuir para a melhoria da qualidade do solo. Além de seu uso como forração em áreas urbanas, jardins e pomares, a espécie também apresenta grande potencial na prevenção da erosão em encostas e terrenos íngremes, devido ao seu crescimento rápido e ao sistema radicular eficiente na fixação do solo.

Embora seja muito parecida com o amendoim forrageiro (Arachis pintoi), ela é uma espécie distinta. Apesar de ser chamada de “grama”, ela não é uma grama verdadeira, às quais pertencem apenas as espécies da família Poaceae, ou gramíneas. Mas como é umas das raras forrações que cobre o solo e suporta o pisoteio, tal como uma gramínea, ganhou a fama e o nome popular.

O nome do gênero Arachis é derivado do grego arachis, que é uma referência a “planta leguminosa”, enquanto o epíteto específico repens refere-se ao hábito rasteiro da planta, caracterizado pelo crescimento prostrado e pela formação de estolões.

A origem da grama-amendoim está restrita ao Brasil, mais especificamente ao estado de Minas Gerais, onde ocorre em ambientes de Cerrado, frequentemente associadas a áreas abertas próximas a cursos d’água. Apesar de sua distribuição natural ser restrita, a planta foi amplamente disseminada para outras regiões do país e também para o exterior, incluindo países vizinhos da América do Sul, os Estados Unidos e algumas áreas da África. A sua adaptabilidade a diferentes condições ambientais favoreceu sua utilização em diversos biomas brasileiros, incluindo Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa, tanto em áreas naturais quanto em jardins urbanos.

A grama-amendoim é uma planta herbácea perene e rasteira, com altura variando entre 10 e 25 cm, dependendo das condições de cultivo. Seu sistema radicular é profundo para uma espécie rasteira, podendo atingir até 30 cm, o que favorece sua resistência à seca e sua capacidade de fixar o solo. As raízes principais são do tipo axial, simples, e apresentam ramificações secundárias. O caule é estolonífero, isto é, desenvolve longos estolões que crescem horizontalmente sobre o solo, enraizando-se nos nós à medida que se expandem. Esse crescimento confere à espécie sua característica de rápida propagação e alta densidade, formando um tapete uniforme. Os ramos são finos, longos e flexíveis, sem presença de rizomas, e carregam folhas compostas que emergem alternadamente ao longo dos estolões.

Detalhe das flores da grama amendoim. Arachuis repens.
Detalhe das flores da grama amendoim.

As folhas da Arachis repens são compostas e tetrafolioladas, ou seja, cada folha possui dois pares de folíolos dispostos de forma oposta. Os folíolos são pinados, com formato ovalado e ápice arredondado, apresentando uma coloração verde intensa e uma textura levemente pilosa na face inferior. Seu crescimento denso contribui para a formação de uma cobertura vegetal compacta, capaz de impedir o crescimento de ervas daninhas.

A inflorescência da grama-amendoim é do tipo axilar, pluriflora, ou seja, brota nas axilas das folhas e pode conter múltiplas flores. Suas flores são pequenas, hermafroditas e apresentam coloração predominantemente amarela, embora em casos raros possam exibir um estandarte alaranjado. A estrutura floral segue o padrão típico das leguminosas, com um estandarte amplo e levemente estriado na face adaxial, asas laterais menores e um cálice discretamente piloso. A floração ocorre ao longo de todo o ano, especialmente em climas quentes e úmidos, sendo um atrativo para insetos polinizadores, como abelhas e pequenos besouros.

Da mesma forma que no amendoim comum (Arachis hypogaea), os frutos da grama-amendoim são subterrâneos. Após a polinização, o ovário alonga-se e cresce em direção ao solo, enterrando-se para o desenvolvimento do fruto. O fruto é do tipo lomento articulado, com um istmo separando os segmentos que contêm as sementes. O pericarpo é liso e relativamente fino, e cada segmento do fruto contém uma única semente. Esse mecanismo de geocarpia, característico do gênero Arachis, reduz a dispersão natural das sementes, mas permite a regeneração após pisoteio intenso, pastejo ou até mesmo um incêndio, uma vez que forma um banco de sementes sob o solo.

A grama-amendoim tem a capacidade de melhorar o solo, uma vez que, como leguminosa, estabelece simbiose com bactérias fixadoras de nitrogênio, o que favorece a fertilidade do substrato sem necessidade de adubação química intensa. Essa característica, aliada à sua capacidade de suprimir ervas daninhas e tolerar sombreamento parcial, a torna uma espécie de eleição como forração em pomares. Devido ao seu alto teor de proteínas, também é bastante valorizada como pastagem, embora geralmente se utilize o amendoim-forrageiro para essa função.

No paisagismo, a Arachis repens é amplamente empregada como forração em áreas onde não há trânsito intenso de pessoas, sendo uma excelente alternativa para substituir gramados convencionais. Apesar de tolerar o pisoteio e rebrotar com vigor, ela adquire um aspecto amassado e bagunçado, perdendo seu efeito estético. Sua capacidade de cobrir o solo rapidamente e sua manutenção mínima fazem dela uma escolha ideal para jardins residenciais, canteiros urbanos, taludes, barrancos e áreas de grande extensão em parques, jardins residenciais e áreas públicas. É frequentemente utilizada em pomares e entre plantas ornamentais, pois protege o solo da erosão e contribui para a retenção de umidade, além de seu apelo ornamental, com suas delicadas flores amarelas que contrastam com a folhagem verde intensa.

A grama-amendoim é uma planta de pleno sol, embora tolere alguma sombra parcial. Seu desenvolvimento ótimo ocorre em climas tropicais e subtropicais. Adapta-se a uma ampla faixa de temperaturas, mas seu crescimento pode ser reduzido em regiões de invernos muito rigorosos, onde pode apresentar perda parcial da folhagem em temperaturas muito baixas. Não tolera geadas, queimando a folhagem nessas condições, mas pode rebrotar após o corte. Prefere solo bem drenado, profundo e com boa fertilidade, mas cresce bem mesmo em solos mais pobres, desde que haja disponibilidade mínima de matéria orgânica e boa umidade. Sua capacidade de adaptação a diferentes tipos de solo faz dela uma excelente opção para recuperação ambiental e controle de erosão.

Uso da grama amendoim (Arachis repens) no paisagismo.
Uso da grama amendoim (Arachis repens) no paisagismo.

A irrigação da grama-amendoim deve ser regular nos primeiros meses após o plantio para garantir um bom estabelecimento da planta, mas uma vez enraizada, ela apresenta boa resistência à seca. Recomenda-se uma adubação inicial com matéria orgânica para estimular o crescimento e, ocasionalmente, pode-se aplicar fertilizantes de liberação lenta para manutenção. Contudo, devido à sua capacidade de fixação de nitrogênio, não há necessidade de fertilizações frequentes. A manutenção é mínima, não exigindo podas regulares, pois seu porte rasteiro impede o crescimento excessivo. Em algumas situações, pode ser interessante realizar um corte leve para estimular a renovação e o adensamento da folhagem.

Em relação a pragas e doenças, a grama-amendoim é uma planta bastante resistente, devido à sua rusticidade, raramente apresenta problemas severos. A boa drenagem do solo e a ventilação adequada ajudam a prevenir o aparecimento de doenças fúngicas que podem surgir em ambientes excessivamente úmidos. Eventualmente pode ser infestada pelo ácaros, lagarta-minadora, cochonilhas, pulgões, lagartas, formigas cortadeiras, tripes, nematóides, brocas e percevejos. Ela pode ter o inconveniente de atrair lebres.

Para multiplicar a grama amendoim podem se utilizar sementes, estaquia dos estolões, mas principalmente a divisão da ramagem enraizada. Esse método permite uma cobertura rápida e eficaz do terreno. O cultivo a partir de sementes não é muito comum, apenas para produtores de sementes, uma vez que a colheita das sementes é difícil, exigindo revolvimento do solo.

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Sobre Raquel Patro

Raquel Patro é paisagista, especialista em plantas ornamentais e fundadora do site Jardineiro.net. Desde 2006, desenvolve um trabalho aprofundado em botânica aplicada e jardins, reunindo um dos maiores acervos de jardinagem em língua portuguesa. Hoje, atua com consultorias e projetos paisagísticos baseados na escolha criteriosa de espécies e na longevidade dos jardins. Para contratá-la acesse: https://raquelpatro.com.br

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