A peônia-chinesa (Paeonia lactiflora), também conhecida como peônia-de-jardim, é uma das plantas ornamentais mais reverenciadas e cultivadas no mundo. Sua presença em jardins e arranjos florais é marcada por flores enormes e exuberantes, fragrância delicada e uma história rica que atravessa séculos de cultivo e apreciação. Esta espécie herbácea perene da família Paeoniaceae é nativa de regiões temperadas da Ásia, incluindo Sibéria, Mongólia, Tibete e norte da China, onde cresce em habitats distintos como estepes, margens de rios e clareiras de florestas.
A peônia-chinesa é amplamente reconhecida por sua importância ornamental e medicinal. Na medicina tradicional chinesa, é conhecida como 芍药 (sháoyào) e suas raízes são utilizadas há mais de mil anos para tratar diversas condições de saúde. Além disso, a planta possui um valor simbólico profundo na cultura chinesa, sendo associada à beleza, feminilidade, riqueza e honra.
O nome científico Paeonia lactiflora foi atribuído pelo botânico alemão Peter Simon Pallas em 1776, baseado em espécimes coletados na região do lago Baikal, na Sibéria. O gênero “Paeonia” deriva do grego antigo παιωνία (paiônia), em referência a Paeon, o médico dos deuses na mitologia grega, que utilizava a planta para curar ferimentos dos deuses. O epíteto específico “lactiflora” significa “flores leitosas” em latim, uma alusão às flores brancas da espécie.

A peônia-chinesa pertence ao grupo das peônias herbáceas, distinguindo-se das peônias arbóreas (Paeonia suffruticosa) e das híbridas interseccionais do tipo Itoh. Trata-se de uma espécie perene que perde completamente a parte aéreas no inverno, ressurgindo a cada primavera a partir de estruturas subterrâneas robustas. Dentro do gênero Paeonia, a Paeonia lactiflora representa uma das espécies mais cultivadas e utilizadas em hibridizações, tendo originado um número expressivo de cultivares ornamentais. Ela é considerada fundamental na genealogia das chamadas peônias de jardim, por seu vigor, estabilidade genética, resistência climática e beleza floral, características que a tornaram a base da horticultura peonífera.
A morfologia da Paeonia lactiflora revela adaptações a ambientes frios e a um crescimento vegetativo sazonal. Seu sistema radicular é formado por raízes tuberosas espessas e carnudas, dispostas radialmente a partir de um caule subterrâneo curto, denominado rizoma. Essas raízes funcionam como órgãos de reserva, acumulando nutrientes que permitem o crescimento vigoroso durante a estação de crescimento. Os caules são eretos, glabros ou ligeiramente pubescentes, de consistência herbácea e textura lisa. Emergindo diretamente do rizoma, eles crescem verticalmente até cerca de 60 a 100 cm de altura, podendo alcançar 120 cm em condições ideais. Apresentam uma coloração verde-acinzentada a verde-purpúrea na base, com progressiva ramificação na porção superior.
Os ramos secundários são curtos e normalmente não se ramificam extensivamente. Cada caule principal pode sustentar de uma a várias inflorescências terminais. As folhas são alternas, compostas, comumente triplinadas, apresentando de nove a vinte e sete folíolos ovado-lanceolados. Cada folíolo mede de 4 a 15 cm de comprimento por 2 a 7 cm de largura, com ápice agudo e margens inteiras ou levemente lobadas. A coloração das folhas é verde-médio a verde-escuro na face adaxial, e mais clara na face abaxial, podendo exibir uma leve pigmentação arroxeada nas nervuras, especialmente durante o crescimento primaveril. A textura foliar é lisa e levemente cerosa, contribuindo para a proteção contra perda de água.

A Paeonia lactiflora é uma planta monóica, ou seja, apresenta flores hermafroditas, com órgãos reprodutivos masculinos e femininos na mesma flor. Suas inflorescências são terminais e solitárias, ocasionalmente axilares, raramente em grupos de dois ou três botões por haste. A floração ocorre entre o final da primavera e o início do verão, tipicamente de maio a junho no hemisfério norte. As flores são grandes, vistosas e extremamente perfumadas, com diâmetro que varia entre 8 a 20 cm, dependendo do cultivar e das condições ambientais. Apresentam simetria radial (actinomorfas) e geralmente possuem de cinco a dez sépalas verdes, seguidas por cinco a dez pétalas verdadeiras ou mais, especialmente em cultivares dobradas.
A coloração das pétalas varia amplamente entre branco, rosa-claro, rosa-vivo, carmim, vermelho e, em algumas seleções, tons próximos ao lilás. Algumas variedades exalam fragrância intensa, lembrando rosas ou lírios, enquanto outras possuem aroma suave ou são quase inodoras. O gineceu é composto por dois a cinco carpelos livres, ovários tomentosos e estigmas curvados, frequentemente de coloração vermelha ou rosada. O androceu apresenta numerosos estames com anteras amarelas e filetes curtos.
A polinização é predominantemente entomófila, realizada por abelhas, moscas e outros insetos atraídos pelo néctar e pela cor intensa das flores. O fruto é um folículo, deiscente, que se abre longitudinalmente ao maturar, expondo as sementes arredondadas, negras e brilhantes. Em plantas selvagens ou em cultivares menos manipulados, os frutos se formam com relativa frequência. No entanto, em muitas cultivares ornamentais, a produção de sementes é escassa ou inexistente, devido à seleção por flores dobradas que sacrificam a fertilidade. As sementes são dispersas por gravidade (autocoria) ou, ocasionalmente, por formigas (mirmecocoria), especialmente em ecossistemas naturais.

Assim como outras peônias, a peônia-chinesa também segue a classificação das flores, segundo os padrões definidos pela American Peony Society, que organiza os diferentes tipos com base na aparência das pétalas e dos órgãos florais. Isso ajuda a entender melhor como são as flores e por que algumas parecem mais cheias ou mais simples que outras. Existem seis tipos principais de flores de peônias, cada um com seu jeito próprio de formar a flor.
- Simples – Esse tipo de flor é o mais parecido com as peônias selvagens. Tem entre cinco e quinze pétalas, organizadas como um pires aberto. No meio da flor, dá para ver facilmente os estames (que produzem pólen) e os carpelos (parte feminina). É uma flor leve e aberta, bem fácil de reconhecer.
- Japonesa – As flores desse tipo têm algo especial no centro: os estames se transformam em estruturas chamadas estaminódios. Eles parecem pétalas finas e coloridas, mas não soltam pólen. Essas flores vieram do Japão e foram escolhidas justamente por não fazerem bagunça com o pólen.
- Anêmona – Nesta forma, o que era para ser estame vira algo ainda mais parecido com pétalas. Esses órgãos, chamados petalóides, são geralmente amarelos e ficam bem no meio da flor. Às vezes são estreitos, às vezes maiores, criando um contraste interessante com as pétalas de fora.
- Bomba – Essas flores parecem uma bola no centro de um prato. A parte do meio é feita de pétalas que cresceram tanto que ficam parecendo uma bolinha, geralmente da mesma cor das pétalas externas. Elas chamam muita atenção pela forma arredondada.
- Semidobrada – Essa flor é um meio-termo. Tem mais pétalas que a simples, mas ainda dá para ver os estames. Às vezes, os estames começam a virar pétalas, ou então a planta só produz mais pétalas do que o normal. Ela fica cheia, mas sem esconder completamente o centro.
- Totalmente dobrada – Essa é a flor mais cheia de todas. Aqui, os estames e carpelos viram pétalas, e o centro da flor some no meio de tantas camadas. Quando os estames ainda existem, estão tão escondidos que só dá para ver se a gente abrir a flor com a mão. Parece que tem uma flor dentro da outra, com muitas camadas.
É inevitável distinguir, ao tratar da história cultural da peônia-chinesa, os limites entre a Paeonia lactiflora e outras espécies do mesmo gênero, como a Paeonia suffruticosa. Embora cada uma possua características botânicas distintas — sendo a lactiflora uma herbácea perene e a suffruticosa uma espécie arbustiva —, ambas compartilham protagonismo no imaginário estético, simbólico e medicinal da cultura oriental, especialmente na China.

Isso acontece porque, historicamente, os chineses usavam os nomes tradicionais mǔdān (牡丹) e sháoyào (芍药) para se referirem a diferentes tipos de peônias, sem necessariamente diferenciar rigorosamente entre espécies botânicas como fazemos hoje na taxonomia ocidental. Assim, quando falamos da presença da peônia na arte, na literatura, na medicina tradicional e no simbolismo imperial, estamos muitas vezes nos referindo ao conjunto das peônias cultivadas no território chinês ao longo dos séculos — e não apenas à Paeonia lactiflora em sentido estrito.
No entanto, a Paeonia lactiflora tem papel central na domesticação e seleção de peônias herbáceas, tanto na China quanto, posteriormente, na Europa. Foi com essa espécie que os botânicos europeus iniciaram cruzamentos sistemáticos para gerar as chamadas “peônias de jardim”, que hoje dominam o cultivo ornamental em regiões temperadas. Essa mesma espécie foi também uma das mais aproveitadas na medicina tradicional chinesa, com raízes conhecidas como bái sháoyào (白芍药), usadas há mais de mil anos para tratar desequilíbrios no fígado, no sangue e no útero feminino, segundo os preceitos da fitoterapia clássica. Dessa forma, a riqueza simbólica, artística e medicinal atribuída às peônias na China envolve um patrimônio botânico compartilhado, em que a Paeonia lactiflora é tanto protagonista quanto coadjuvante ao lado de outras espécies.
Ao ser introduzida na Europa, especialmente entre os séculos XVIII e XIX, a Paeonia lactiflora passou a ser vista não apenas como planta exótica e decorativa, mas como flor artística. Seu cultivo se expandiu rapidamente na França, Inglaterra e Alemanha, onde jardineiros e hibridadores começaram a selecionar variedades com flores mais exuberantes, dobradas e perfumadas. Nessa época, seu aspecto visual tornou-se inspiração para artistas plásticos que buscavam capturar a natureza em sua forma mais exuberante e sensorial. Claude Monet, um dos principais nomes do impressionismo francês, cultivava peônias em seu famoso jardim de Giverny e as retratou com destaque em suas pinturas florais. Outros artistas como Édouard Manet, Vincent van Gogh e Pierre-Auguste Renoir também exploraram a peônia como símbolo de luxo e feminilidade.

As formas generosas da flor, com suas camadas suaves e coloração intensa, se ajustaram perfeitamente à estética impressionista, que privilegiava a representação da luz, da textura e do movimento natural. No design decorativo do final do século XIX, sobretudo no estilo Art Nouveau, a peônia passou a figurar em padrões de papel de parede, vitrais, bordados e cerâmicas, muitas vezes estilizada, mas sempre reconhecível por seu perfil volumoso e ornamental. Essa transição entre o coletivo cultural oriental e a individualização botânica ocidental explica por que a Paeonia lactiflora, mesmo fazendo parte de um conjunto simbólico maior, conquistou lugar próprio no coração da horticultura e da arte global.
A Paeonia lactiflora possui uma ampla variedade de cultivares, muitas das quais foram reconhecidas com o Award of Garden Merit (AGM) pela Royal Horticultural Society (RHS). Abaixo, destacam-se algumas das principais cultivares de Paeonia lactiflora que receberam o AGM, cada uma com características distintas que as tornam valiosas para colecionadores, paisagistas e entusiastas da jardinagem ornamental.
- ‘Sarah Bernhardt’: Uma das cultivares mais populares, apresenta flores duplas em tons de rosa suave, com pétalas delicadamente onduladas e fragrância marcante. É amplamente utilizada em arranjos florais e destaca-se pela sua longa duração em flor.
- ‘Festiva Maxima’: Conhecida por suas flores duplas brancas puras, com ocasionais manchas carmim no centro. Possui aroma intenso e floresce no final da primavera, sendo uma escolha clássica para jardins formais.
- ‘Duchesse de Nemours’: Esta cultivar exibe flores duplas brancas com um leve toque esverdeado no centro. É apreciada por sua fragrância doce e pela elegância de suas flores, que lembram rosas.
- ‘Monsieur Jules Elie’: Apresenta flores grandes e duplas em tons de rosa prateado, com pétalas centrais mais claras. É valorizada por sua aparência exuberante e perfume agradável.
- ‘Bowl of Beauty’: Destaca-se por suas flores anêmonas, com pétalas externas rosa vibrante e um centro creme. Esta combinação de cores cria um contraste visual impressionante.
- ‘Coral Charm’: Uma cultivar semi-dupla com flores em tons de coral que desbotam para um rosa suave à medida que amadurecem. É conhecida por sua floração precoce e pela singularidade de sua coloração.
- ‘Felix Crousse’: Apresenta flores duplas em um tom profundo de rosa-cereja, com pétalas densamente agrupadas. É uma escolha tradicional para jardins clássicos.
- ‘Laura Dessert’: Esta cultivar oferece flores duplas brancas com pétalas finamente cortadas, criando uma textura delicada. É apreciada por sua elegância e perfume sutil.
- ‘Whitleyi Major’: Possui flores simples brancas com estames dourados proeminentes, proporcionando um visual limpo e clássico. É uma opção ideal para jardins de estilo naturalista.
- ‘Miss America’: Apresenta flores semi-duplas brancas com um leve toque rosado no botão, abrindo-se para revelar estames dourados. É conhecida por sua fragrância suave e floração abundante.
Estas cultivares representam apenas uma seleção das muitas variedades de Paeonia lactiflora disponíveis, cada uma oferecendo características únicas que podem atender a diferentes preferências estéticas e necessidades de design de jardim. A escolha da cultivar adequada pode enriquecer significativamente a composição paisagística, proporcionando florescimento espetacular e interesse visual ao longo da estação.

A Paeonia lactiflora é uma das espécies ornamentais mais versáteis e sofisticadas disponíveis para o paisagismo e o uso floral decorativo. Sua imponência, variedade de formas florais e riqueza cromática tornam-na uma planta de destaque tanto em projetos de composição de bordaduras e maciços como em arranjos florais cortados para ambientes internos. A natureza perene e a textura herbácea vigorosa dessa espécie fazem dela uma planta de estrutura intermediária no paisagismo, ocupando um papel de transição entre arbustos lenhosos e herbáceas menores.
No paisagismo, a escolha da localização das peônias deve considerar não apenas a estética, mas também os fatores ecológicos que favorecem sua floração. A espécie exige solos férteis, ricos em matéria orgânica, bem drenados e com boa aeração. A umidade excessiva no entorno das raízes tuberosas pode comprometer severamente o desempenho da planta. Assim, o posicionamento ideal de uma Paeonia lactiflora em projetos paisagísticos envolve, por vezes, a modificação do solo, com incorporação de composto orgânico e elevação dos canteiros. Seu cultivo em locais de pleno sol, mas protegidos de ventos fortes, proporciona as melhores condições para o desenvolvimento de florações vigorosas.
Do ponto de vista estrutural, as peônias herbáceas apresentam uma massa visual significativa. Elas funcionam como plantas de médio porte em canteiros mistos, oferecendo volume e textura. Por esse motivo, são frequentemente utilizadas em bordaduras, em composição com arbustos de fundo e herbáceas floríferas de porte menor na frente. Em grandes jardins, são eficazes como planta focal de primavera, especialmente quando agrupadas em maciços. A densidade e durabilidade da folhagem permitem que a planta mantenha valor ornamental mesmo fora do período de floração, embora seja importante selecionar cultivares que não apresentem senescência precoce, o que causaria lacunas indesejadas no jardim.

Na construção de bordaduras floridas, a escolha das cores das flores de peônia deve considerar o impacto visual a diferentes distâncias. Flores brancas, creme e rosa-claro são perceptíveis mesmo a longos alcances visuais, enquanto flores vermelhas intensas, apesar de chamativas de perto, tendem a se perder no conjunto em distâncias maiores. Por isso, cultivares de cores escuras devem ser posicionadas mais próximas do observador. Essa lógica visual é particularmente útil em jardins com percursos curvilíneos ou jardins frontais, onde a percepção espacial muda conforme o visitante se move.
Além da cor, a forma da flor influencia na função paisagística. Tipos simples, japoneses e anêmonas são mais resistentes à chuva, pois acumulam menos água nas pétalas. Já os tipos duplos e bomba, embora espetaculares, são mais propensos a dobrar os caules sob o peso das flores encharcadas, o que requer tutoramento ou abrigo. As plantas com flores do tipo bomba, no entanto, oferece uma transição visual interessante por abrir inicialmente com aparência de flor simples e evoluir para a exuberância dos tipos duplos, mantendo valor estético por vários dias.
Para quem aprecia a lógica da composição no paisagismo, a Paeonia lactiflora pode ser utilizada em projetos que mesclam sequência de cor, sincronismo de floração e contraste de textura. Cultivares com vermelhos de subtom azulado ou amarelado, além de variações em tons pastéis e marcações pigmentares delicadas, oferecem amplas possibilidades para composições sofisticadas, especialmente quando se considera o tempo de abertura das flores.

Na arte floral, a peônia é insuperável em elegância e aroma. As flores cortadas de Paeonia lactiflora são largamente utilizadas na floricultura de alto padrão, sendo valorizadas em arranjos formais, buquês de noiva e composições de interiores. O ideal é colher os botões ainda fechados, no chamado “estágio de marshmallow” – quando estão firmes, mas macios ao toque – pois isso garante maior durabilidade no arranjo. Em arranjos florais, a peônia combina de forma harmoniosa com outras flores de aparência igualmente luxuosa, como rosas e lisiantos, criando composições cheias, elegantes e impactantes. Para contrastes visuais, pode ser associada a flores de formas mais esguias, como esporinhas ou hastes florais leves, que equilibram sua opulência.
Alguns jardineiros podem desejar dedicar uma área do jardim exclusivamente para cultivo de flores de corte, onde as peônias são organizadas em canteiros utilitários, semelhantes a hortas ornamentais. Esse arranjo permite a colheita sem comprometer a composição do paisagismo principal, além de facilitar os cuidados com suporte, irrigação e controle sanitário. Em ambientes internos, a Paeonia lactiflora mantém seu valor decorativo por até dez dias, desde que em água fresca e fora da luz solar direta.
A Paeonia lactiflora é uma planta de clima temperado frio, com ciclo vegetativo diretamente dependente da exposição a baixas temperaturas no inverno. Para florescer adequadamente, a espécie requer um período prolongado de frio, com temperaturas próximas ou abaixo de 5 °C por várias semanas consecutivas. Essa exigência térmica, chamada de vernalização, é essencial para a formação de botões florais e para a retomada do crescimento na primavera. Em regiões de clima subtropical quente ou tropical, onde os invernos não apresentam frio suficiente, a planta tende a entrar em declínio após alguns anos, com perda gradual da capacidade de floração, mesmo que mantenha seu porte vegetativo. No Brasil, seu cultivo obtém sucesso no sul do país, e em regiões serranas, com altitudes que permitam invernos mais rigorosos.

A luminosidade ideal é a luz solar plena durante a maior parte do dia. A Paeonia lactiflora deve receber no mínimo oito horas de sol direto diariamente para garantir um bom desenvolvimento e produção de flores. Em locais parcialmente sombreados, a planta pode sobreviver e manter sua folhagem, mas produzirá poucas ou nenhuma flor, especialmente se o sombreamento ocorrer durante as horas de maior intensidade solar. Para regiões de clima mais quente, cultivares de flores simples, semi-dobradas ou do tipo japonês são mais indicadas, pois se abrem mais facilmente e são menos afetadas por temperaturas elevadas durante a floração.
O solo de jardim deve ser fértil, profundo, com boa estrutura física e alto teor de matéria orgânica. A drenagem deve ser excelente, pois a espécie é extremamente sensível ao excesso de umidade nas raízes tuberosas. A presença de solo argiloso ou compactado exige correções com areia grossa e composto orgânico para aumentar a porosidade. Em regiões de chuvas abundantes ou de solo naturalmente úmido, recomenda-se o plantio em leiras elevadas ou canteiros drenantes. Em vasos, deve-se utilizar um substrato leve, porém nutritivo, com boa retenção de umidade sem encharcamento. Uma mistura eficaz inclui terra vegetal, composto bem curtido e perlita ou areia grossa, em proporções equilibradas.
O plantio das mudas de Paeonia lactiflora deve ser realizado no outono, período no qual a planta está dormente. As raízes devem ser posicionadas de forma que os brotos (olhos) fiquem entre 3 e 5 cm abaixo da superfície do solo — mais profundo que isso, e a planta poderá ter dificuldade para florescer. O espaçamento ideal entre plantas é de no mínimo 60 cm, permitindo ventilação e evitando o acúmulo de umidade entre as folhagens, o que reduz o risco de doenças fúngicas.

A Paeonia lactiflora é uma planta de longa vida, podendo permanecer saudável e produtiva por mais de cinquenta anos no mesmo local, desde que sejam mantidas as condições adequadas. As regas devem ser moderadas, mantendo o solo ligeiramente úmido, mas nunca encharcado. Os períodos mais críticos para a irrigação são o final do verão e o outono — quando as raízes crescem e se fortalecem — e a primavera, durante a formação e expansão das flores. Em regiões de clima seco, a irrigação regular deve ser mantida até a queda das folhas no fim da estação.
A adubação deve ser feita de forma equilibrada. No início da primavera, aplica-se uma formulação rica em nitrogênio e fósforo para estimular o crescimento vegetativo e o desenvolvimento floral. Após a floração, é recomendado um fertilizante com maior teor de potássio, promovendo o fortalecimento das raízes para o próximo ciclo. O excesso de adubação nitrogenada pode favorecer o crescimento excessivo da parte aérea, tornando os caules fracos e mais propensos ao tombamento.
Por se tratar de uma planta herbácea de flores grandes, o tutoramento é uma prática importante, especialmente em cultivares de flores duplas ou do tipo bomba. Suportes em forma de anel ou estruturas circulares devem ser instalados ainda no início do crescimento, para que os caules se desenvolvam dentro da estrutura. Isso evita que a planta tombe sob o peso das flores, especialmente em dias chuvosos.

A poda das folhas deve ser realizada no final do outono, após a senescência natural da parte aérea. Toda a porção acima do solo deve ser cortada rente à superfície, e os resíduos vegetais removidos do local para prevenir a proliferação de doenças fúngicas. Essa poda anual é essencial para manter a saúde da planta e estimular a brotação vigorosa na primavera seguinte.
A manutenção da Paeonia lactiflora inclui a remoção das flores murchas (deadheading) ao longo da floração, o que redireciona a energia da planta para o fortalecimento das raízes, em vez da formação de sementes. Divisões de touceiras são raramente necessárias, mas podem ser realizadas a cada 10 a 15 anos, preferencialmente no outono, utilizando ferramentas limpas e afiadas. O replantio imediato após a divisão deve seguir as mesmas recomendações do plantio original.
A Paeonia lactiflora apresenta alta resistência a geadas intensas e invernos prolongados. Trata-se de uma planta perfeitamente adaptada a baixas temperaturas, sendo capaz de suportar congelamentos severos durante sua fase de dormência sem prejuízo ao crescimento ou à floração subsequente. Essa resistência ao frio se deve à sua natureza: toda a parte aérea morre naturalmente no final do outono, enquanto as raízes tuberosas permanecem protegidas sob o solo, acumulando reservas para a brotação seguinte. A espécie não apenas tolera, como depende de um período de frio para completar seu ciclo reprodutivo, necessitando de vernalização para a indução floral.

No entanto, a Paeonia lactiflora apresenta sensibilidade à seca prolongada, sobretudo durante os períodos de brotação, floração e enraizamento (início da primavera e fim do verão ao outono). Embora suas raízes armazenem água, o estresse hídrico pode prejudicar a abertura das flores, resultando em botões que não desabrocham ou em florações inferiores em tamanho e duração. Por isso, mesmo sendo resistente à seca leve, é fundamental que o solo permaneça levemente úmido nessas fases críticas. Quanto à exposição ao vento, a planta tolera ventos moderados, desde que devidamente tutorada. Cultivares de flores grandes e caules mais finos são particularmente suscetíveis à quebra sob vento intenso ou após chuvas fortes, o que pode comprometer o efeito ornamental.
A tolerância à exposição a brisas salinas e solos com salinidade é limitada. Embora algumas cultivares possam se adaptar a jardins costeiros protegidos, a exposição direta a ventos salgados pode causar necrose nas folhas e interferir na saúde geral da planta. As peônias de jardim são geralmente ignoradas por cervos e coelhos. No entanto, brotos jovens podem ser consumidos em períodos de escassez de alimento, sendo recomendável proteção física em áreas com presença desses animais.
A espécie é considerada resistente maior parte das pragas e doenças. A principal doença associada ao cultivo da espécie é a murcha-da-pêonia (Botrytis paeoniae), um fungo que ataca tecidos jovens em condições de alta umidade e baixa ventilação. Os sintomas incluem manchas escuras nos brotos e flores, murchamento súbito e apodrecimento das flores. O controle envolve práticas preventivas como espaçamento adequado, boa drenagem, remoção de resíduos vegetais no outono e aplicação de fungicidas específicos em áreas críticas. Outras doenças menos frequentes incluem o míldio, ferrugens e podridões radiculares causadas por fungos de solo, que podem ser evitadas por meio da escolha de locais bem drenados e do uso de cultivares resistentes e mudas vigorosas.

Insetos como tripes, pulgões e besouros podem ocasionalmente atacar as flores, alimentando-se do néctar ou perfurando pétalas. Embora raramente causem danos graves, podem comprometer o aspecto estético das flores comerciais. Em jardins, o controle costuma ser desnecessário, mas em cultivo comercial, pode-se recorrer a pulverizações com extratos naturais ou produtos de baixo impacto.
A propagação da Paeonia lactiflora pode ser realizada de duas formas principais: por divisão de touceiras e por sementes. A divisão é o método mais utilizado e mais eficiente para manter as características genéticas da planta-mãe. Ela deve ser feita durante o período de dormência, no outono, com ferramentas limpas e cortes precisos. Cada divisão deve conter pelo menos três a cinco olhos (gemas de crescimento) e porções saudáveis de raiz tuberosa, que devem ser firmes como cenouras. Após o plantio, as novas mudas podem levar de dois a três anos para atingir o pleno florescimento, embora algumas possam apresentar flores isoladas já no segundo ano.
A propagação por sementes é possível, mas menos comum, sendo utilizada principalmente por viveiristas e melhoristas. As sementes de Paeonia lactiflora apresentam dormência dupla — morfológica e fisiológica — e requerem estratificação a frio por dois períodos consecutivos, podendo levar até dois anos para germinar. Após a germinação, as plantas resultantes podem demorar de quatro a sete anos para florescer pela primeira vez, além de apresentarem variabilidade genética, ou seja, não serão necessariamente idênticas à planta-mãe. Por isso, a multiplicação vegetativa continua sendo o método preferido para manter cultivares estáveis e de valor ornamental comprovado.


