Entrevista: Paisagista Gustaaf Winters

Paisagista Gustaaf Winter. Foto arquivo pessoal.
Paisagista Gustaaf Winter. Foto arquivo pessoal.
Essa semana nosso entrevistado é o Paisagista Gustaaf Winters. Nascido na Holanda, ele veio para o Brasil na década de 1950, ainda bebê, tomando parte na imigração holandesa que se fixou em Holambra/SP após a Segunda Guerra Mundial. E que contribuição os holandeses trouxeram para o nosso país! Uma mente brilhante, que transformou a paisagem com a sua arte e ciência paisagística. Responsável por grandiosos projetos, Gustaaf Winters não se cansa em deixar o Brasil cada vez mais bonito, sustentável e funcional, seja no campo, na praia ou na cidade. Além disso, ele assumiu como missão divulgar seus conhecimentos a paisagistas e jardineiros de todo país, através de seus cursos, palestras e viagens técnicas. Assim, tive dificuldade em montar essa entrevista. O que perguntar a um grande mestre paisagista, sem cair em algum tema específico e conseguir traçar um perfil geral? Com certeza haveria necessidade de muito mais questões para satisfazê-los leitores. Mas fica a promessa de que esta é a apenas a primeira de muitas outras que virão.

– Qual a sua formação e o porque da escolha pela profissão de paisagista? A origem holandesa teve algum papel na sua escolha profissional?
Aqui, no Brasil, sou biólogo, formado pela UNESP – Rio Claro. Vim para o Brasil de fraldas, com um ano de idade, direto para a Holambra. Cresci vendo as pessoas plantando flores. O passeio da família, aos domingos, muitas vezes era visitar as praças nos balneários turísticos da região. E eu, grudado na saia da minha mãe, tinha que dar “cobertura” para ela roubar as estaquinhas e ponteiros das plantas, para que o guarda não pegasse a “ladra”. As estacas eram enraizadas em copos com água e, diferentemente daquele grãozinho de feijão em cima de um pires com algodão molhado, em pouco tempo, lá estavam elas florindo no nosso jardim. Daí a escolha pela Biologia que, ao meu entender, tinha mais a ver com Paisagismo. Depois descobri que, de Paisagismo mesmo, havia aprendido muito pouco e fui pra Holanda aperfeiçoar meus estudos.

– Qual(is) paisagista(s) tiveram maior influência na sua formação e no seu modo de pensar o jardim?
Meu primeiro emprego, aqui, foi de botânico no Parque Ecológico do Tietê, SP: um projeto do Ruy Otake e Burle Marx. Tinha que ir constantemente à chácara dele no Rio e muitas vezes ele vinha à São Paulo dar umas broncas no botânico holandês. Outro bronco foi o Arqto. Godoy: o gerente da obra. Eu era apelidado de “queijão holandês”….só levava ralada! Rsrs. Mas foi assim que comecei a entender que Paisagismo e Jardinagem representam os dois pés de uma escada: se faltar um, não se sobe, não se chega ao alto e não se evolui nessa especialidade multi diciplinar. Foi a base para eu projetar e implantar o paisagismo do Aeroporto Internacional de Guarulhos, também junto ao Arqto. Godoy.

– Como é o seu processo criativo e como organiza as etapas de um projeto paisagístico?
Como não existe ambulância de jardins, eu tenho que, primeiro, visitar o lugar. Faço todo um Estudo Preliminar, que passa obrigatoriamente por uma conversa exaustiva com o cliente, pego amostras de solo, mapeio as sombras do lugar, registro no desenho, onde estão passando os canos, a fiação elétrica, eventuais elementos naturais, anoto as datas especiais para formular meu cronograma de florescimento. No escritório, determino um tempo para terminar o anteprojeto e o projeto executivo, na qual se baseiam os meus honorários. Isso é comunicado ao cliente. Se ele concordar, começo o projeto pelos elementos construídos e depois a vegetação.

Projeto de uma parte do jardim - Espaço destinado aos funcionários do Veiling Holambra.
Projeto de uma parte do jardim – Espaço destinado aos funcionários do Veiling Holambra. Projeto de Gustaaf Winters

– Na sua opinião, qual a melhor estratégia para conquistar o cliente na hora de apresentar um anteprojeto ou proposta de trabalho?
Não deixar transparecer que você está ali para arrancar o dinheiro dele. Nós vendemos estado de espírito, emoção! Deixar claro que um jardim não é só grama, árvores, florzinhas. Um jardim tem copos. E se tem copos tem uma mesa. E se tem mesa com copos, você pode juntar a família, os amigos e fazer seu network. Um jardim ascende à alma e o espírito das pessoas. E é o único lugar onde você pode fazer o que quer. Em contrapartida, numa cidade, o paisagista tem a oportunidade de harmonizar toda a população, diminuindo a criminalidade. Não dá para calcular isso em dinheiro.

“…Paisagismo e Jardinagem representam os dois pés de uma escada: se faltar um, não se sobe, não se chega ao alto e não se evolui nessa especialidade multi diciplinar.”

– Você tem a oportunidade de trabalhar muito com áreas públicas, como parques, praças, avenidas, etc. Qual a importância do paisagismo nestas áreas para o bem estar social? E como deve(ria) funcionar a manutenção dessas áreas pelos órgãos responsáveis?
O destino arrastou-me para o Macro Paisagismo Urbano. Isso teve início quando fui convidado para trabalhar junto a um secretário de meio ambiente do Estado de São Paulo. Montei ali o Programa Somando Verde. Íamos até as cidades do interior, implantar, remodelar, reformar e revitalizar praças e parques. Os prefeitos recebiam os projetos e as mudas no caminhão, provenientes do viveiro de mudas do Parque Ecológico do Tietê. Inauguramos assim centenas e centenas de áreas verdes num prazo de 8 anos. Um jardim público você contempla bem mais pessoas do que um jardim residencial. O problema está na manutenção. A administração pública troca a cada 4 anos. O sucessor geralmente é inimigo mortal do antecessor. Os prefeitos possuem a fantástica oportunidade de serem os melhores professores de educação ambiental: dando o exemplo! Deixando a sua cidade limpa, varrida, colorida, sombreada, perfumada. Isso reestabelece o sentido de ordem (palavra escrita na nossa bandeira) pois nós somos e nos comportamos de acordo com o que estamos vendo.

Mas, com o tempo, você acaba aprendendo, a duras penas, a não morrer de amores por nenhum projeto seu.
Há exceções! Por exemplo, o trabalho urbanístico que fizemos em Vinhedo, SP. Ali, só com Paisagismo Urbano, conseguimos diminuir a criminalidade em 53% em 6 anos. Isso tem a ver com a “teoria da janela quebrada” de James Wilson e George Kelling.

– De acordo com a sua observação, quais os erros mais graves que os colegas paisagistas e urbanistas tem cometido no paisagismo urbano brasileiro?
Talvez motivado por uma profissão que ainda não foi regulamentada aqui no Brasil, cada um “chuta” de um jeito. Não existe união. E não adianta ser uma estrela se não pertencermos a uma constelação. Não existe um padrão de projeto, tampouco um Manual de Implantação e Manutenção: a única ferramenta que garante a fidelidade ao que o paisagista projetou e garante a continuidade do jardim. Quando se trata de Paisagismo Urbano então….Os nomeados para comandar a pasta são apadrinhados sem conhecimento técnico da área. No Brasil, não se exige isso. Tudo é resolvido naquilo que mais dá votos mesmo sabendo que na folha de pagamento existem técnicos competentes, incompetentes para impor que a primeira coisa a ser feita numa cidade é eliminar as agressões visuais. E quando um Prefeito quer melhorar a sua cidade, manda elaborar um “pregão eletrônico” onde ele tem que escolher mais barato: é lei! Já viram algum ganhador de um desses pregões fazer uma pesquisa popular, antes de mexer numa praça, por exemplo? Outra coisa: já viram um desses Editais? Poderia escrever um livro sobre isso mas, paro por aqui.

Jardim para os funcionários - Veiling Holambra
Jardim para os funcionários – Veiling Holambra. Projeto de Gustaaf Winters

– O paisagismo, como uma forma de arte, está em constante evolução, incorporando novas tendências e plantas, assim como a percepção das pessoas com relação ao jardim e sua importância. O que você percebe como mais importante mudança na história recente do paisagismo e na forma como ele é consumido?
A Arte aplicada ao Paisagismo nunca foi problema no País. Os paisagistas brasileiros são muito criativos e, como disse, estão em constante evolução. Mas, o Paisagismo não é só uma arte! Ela incorpora obrigatoriamente as leis da Ciência Paisagística. Um jardim começa quando plantamos a última muda! Tudo o que compramos no comércio possui um manual. São poucos os que conseguem entender o que estão entregando ao cliente e garantir o seu sadio desenvolvimento fornecendo um “Manual de Instruções”.

Um paisagismo perfeito pode ser comparado a um banquinho de 4 pés:

  • 1.: um bom cliente
  • 2.: um bom paisagista
  • 3.: um bons e honestos fornecedores
  • 4.: um bom executor

Se um desses pés falharem, o banquinho cai. Os quatro envolvidos estão sempre muito perto do erro. Então fico na dúvida se, “houve alguma mudança na cultura de consumir jardins na história recente”. O que houve foi um amadurecimento por parte da população em relação ao seu papel no Planeta. Há uma conscientização geral de que os recursos são escassos e findáveis. Todos adoram plantas, a natureza, mesmo sabendo que, entre desmatamento e plantio, estamos perdendo muito feio. Mas devido ao momento em que o País está passando, o brasileiro parece ter outras prioridades.

– Como um experiente mestre em paisagismo e jardinagem, como você vê a formação do paisagista atualmente? O que você poderia aconselhar para os interessados em ingressar na profissão?
Poderia responder a essa pergunta repetindo as primeiras frases da pergunta anterior. Mas, aos que já trabalham na área, independente de sua formação, sonho algumas vezes com a criação do que eu batizo de A Ordem dos Paisagistas do Brasil (OPB), que funcionaria como a Ordem dos Advogados do Brasil na seleção de profissionais qualificados para o mercado de trabalho. Todas as associações atuantes do meio seriam responsáveis por eleger uma bancada de consenso, formada por quem mais entende de Paisagismo no País. Seria, então, redigido um estatuto de ética profissional e todos os parâmetros que envolvem o trabalho na área: desde a especificação de como as mudas devem ser apresentadas pelos produtores e comercializadas nos viveiros, a questão dos substratos, dos elementos construídos, até a definição de um projeto executivo paisagístico completo. A partir da criação da ordem, todos os candidatos formados passariam por uma sabatina para testar seus conhecimentos. Aos aprovados, seria concedida uma carteirinha. A partir daí, o cliente que contrata os serviços de um profissional filiado à OPB, tem garantia de que se trata de alguém qualificado. Se isso vai ser reconhecido pelo CREA ou CAU é o que menos vai interessar ao nosso cliente. Sabe-se que anda tramitando em Brasília o Projeto de Lei 2043/11 que propõe a regulamento da nossa profissão. Li a redação da PL mas, achei muita coisa estranha.

Aos que estão ingressando na área….. Em primeiro lugar acho que é importante ter a vocação. Depois, muita perseverança, humildade para aprender, se atualizar em estágios e cursos, congressos e viagens. Estude pelo menos uma hora por dia nos sites da internet que abordam assuntos da profissão. Hoje está bem mais fácil do que quando comecei. E finalmente, executar o primeiro jardim, chutar a bola e correr atrás. Os clientes estão aí. O paisagista aprende coisas novas a cada jardim que implanta, a cada cliente.

Paisagista: Gustaaf Winters
Centro Paisagístico
Macro Paisagismo Urbano e Rural
Cursos Regulares de Paisagismo, Jardinagem e Manutenção de Áreas Verdes
Holambra – SP
Página Web: http://www.centropaisagistico.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/centropaisagistico.gustaafwinters?fref=ts
Telefone: (19) 3802.1713 e (19) 9.9213.5227

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One comment on “Entrevista: Paisagista Gustaaf Winters

  1. Excelente reportagem! Que enriquecimento para a cultura brasileira a presença e o trabalho desse holandes! Especialmente no paisagismo que, infelizmente, como ele mesmo diz, não é prioridade nas administrações de nossos governantes…..

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