Entrevista: Paisagista Ciliane Raquel Wille Augustin

Paisagista Ciliane Raquel Wille Augustin. Foto Arquivo Pessoal
Paisagista Ciliane Raquel Wille Augustin. Foto Arquivo Pessoal
Este mês inauguramos uma nova seção no site Jardineiro.net, entitulado inicialmente como “Entrevistas”, a seção nasceu com o objetivo de revelar o perfil dos paisagistas brasileiros, descobrindo qual a sua formação, sua estrutura de trabalho, mas principalmente suas ideias e concepções sobre o paisagismo nos municípios brasileiros. E para abrir esse novo canal, escolhi ninguém menos que Ciliane Raquel Wille Augustin, que além de ser grande amiga de quem lhes escreve é paisagista atuante há 10 anos na região do Planalto Norte do estado de Santa Catarina, onde vem executando um trabalho todo especial, que chama a atenção de todos que visitam esta encantadora região de colonização européia, paisagem serrana natural e vocação turística, ainda pouco explorada. Vamos conhecê-la melhor?

– Qual a sua formação e como foi a escolha pela profissão de paisagista?
Sou formada em Artes Plásticas pela UFPR, Curitiba /PR, em 1988 e em Tecnologia em Paisagismo e Jardinagem pela UNC – Canoinhas/SC em 2008.  Sempre adorei jardins e hortas, ainda muito pequena acompanhava minha avó nos cuidados com seus canteiros de temperos, hortaliças e flores. Fazer mudinhas, semear, podar, dar “comida e água”, colher, arrumar um vaso com flores e folhas coloridas ou desfrutar de uma cenoura fresquinha sempre foram atividades extremamente prazerosas. Também naquela época a volta da escola era o momento certo para a colheita das espécies diferentes (matinhos floridos) para minha coleção de plantas. O tempo foi passando e decidi que queria ser professora. Mudei para Curitiba e durante quatro anos cursei Artes Plásticas na UFPR. Foram anos difíceis, mudar para uma cidade grande e morar num apartamento.

Terminada a faculdade, retornei a Rio Negrinho para lecionar para crianças e adolescentes. Nessa época cultivava apenas o jardim da minha casa e não imaginava que mudaria de profissão. A minha coleção de plantas começou a crescer e muitas espécies de flores, arbustos e árvores começaram a ganhar uma disposição mais elaborada no meu jardim, que acabou virando observatório e laboratório de idéias. Tudo o que dizia respeito a paisagismo me interessava, revistas, livros, floriculturas, jardins botânicos, praças e parques. Foi em 2004 que de forma voluntária projetei e acompanhei a execução do trevo principal de acesso a Rio Negrinho. Em 2005 veio o Curso de Paisagismo e Jardinagem na Universidade do Contestado e a necessidade de me organizar como profissional fez nascer a empresa Ornato Jardins. Hoje com 10 anos de trabalho e dedicação me sinto paisagista, não sei dizer exatamente quando foi que escolhi ou se escolhi, às vezes tenho a impressão que já nasci paisagista.

Canteiros Centrais de Avenida no município do Rio Negrinho. Projeto de Ciliane.
Canteiros Centrais de Avenida no município do Rio Negrinho. Projeto de Ciliane.

– Quais são suas principais influências?
Em 2004 quando fui convidada a projetar o trevo principal de Rio Negrinho, fui a Holambra fazer o Curso de Manejo de Áreas Verdes, foi aí que conheci Gustaaf Winters, pessoa incrível e grande paisagista. Dez anos se passaram, e os seus ensinamentos, que vieram na minha bagagem, fazem parte do meu dia a dia. Em 2005, conheci Murilo Passos, arquiteto professor do curso de Paisagismo da UNC, grande mestre e amigo. Durante quatro anos estivemos juntos, foram aulas e mais aulas, seminários, projetos, conversas e mais conversas, devaneios. Foi nessa época, pesquisando sobre a obra e a vida de Roberto Burle Marx, que me apaixonei mais ainda pelo paisagismo. Para mim uma de suas frases mais marcantes é esta :

“Se me perguntarem se prefiro criar jardins coletivos ou particulares, sem pestanejar respondo que gosto que meus projetos sejam usufruídos pela coletividade. Sempre tive medo de viver e não contribuir com alguma coisa. – Roberto Burle Marx”

Acredito que ele tenha contribuído com muito mais do que imaginava. Com certeza a grande maioria dos projetos que vemos hoje tem alguma influência do grande paisagista que ele foi.

– Quais plantas você mais gosta de usar em seus projetos e porquê?
A maioria dos meus projetos são para grandes áreas, sendo assim são sempre muitas e muitas plantas diferentes, sendo assim é difícil escolher alguma em especial. Gosto de Cerejeiras Ornamentais, pelas suas folhas caducas e pelo espetáculo das suas floradas, dão dinamismo à paisagem. Considero as Abélias arbustos versáteis, estão sempre vivas e florescem abundantemente, além da rusticidade do cultivo aceitam qualquer tipo de poda. Os Ofiopogos e os Agapantos, funcionam muito bem como forração, apresentam variedade de cores e tamanhos e são de fácil manutenção, principalmente em grandes áreas – isso é um grande diferencial. E claro, as Bougainvilleas, que não sem motivo são popularmente conhecidas como Primavera, com suas floradas espetaculares e cores variadas, ela é uma das nativas que mais uso nos meus projetos, e aqui na minha região é uma das preferidas pelos clientes.

– Quem são os seus clientes? Você trabalha mais com residências, empresas ou áreas públicas?
Numa cidade pequena, você acaba atendendo a todos os setores. Há cinco anos desenvolvo um trabalho junto à Prefeitura de Rio Negrinho. Atendo a muitos projetos residenciais em Rio Negrinho e na vizinha cidade de São Bento do Sul, e grande parte do meu trabalho se concentra nas chácaras da serra de Campo Alegre.

– Quais são os principais projetos que a Ornato Jardins vem executando atualmente?
Acabei de renovar contrato com a Prefeitura de Rio Negrinho, e um dos projetos que estão sendo desenvolvidos prevê a implantação dos jardins no Centro Cívico, no centro da cidade, em uma área que abrigava a antiga Móveis Cimo, em volta da qual nasceu a Rio Negrinho. A manutenção dos projetos implantados nas chácaras de Campo Alegre, e a implantação de jardins em novas propriedades também estão na agenda.

– Quais as peculiaridades da região do Planalto Norte de Santa Catarina para o paisagismo e jardinagem?
Nossa região, na média está a 800 metros de altitude. Isso nos dá um inverno rigoroso, muito frio e muito úmido. Ao mesmo passo que estamos muito perto dos grandes produtores de plantas ornamentais da região de Joinville, necessitamos buscar plantas para o clima serrano. A região foi colonizada por alemães e poloneses, os jardins tendem a ser floridos e mais orgânicos.

– Que tendências do paisagismo você considera mais promissoras atualmente?
A cada dia as pessoas estão mais atentas ao Meio Ambiente, e têm percebido que é vital que todos cuidem do planeta. Todas as ações e interações em relação à paisagem devem ser pensadas como um todo, mesmo o menor jardim, faz parte do todo e o influencia. Acredito que o Paisagismo Ecológico é o caminho mais acertado para trilharmos como profissionais. Pequenas atitudes na hora de projetar, implantar e manter essas áreas devem ser consideradas, a utilização de plantas menos exigentes em regas, forrações de fácil manutenção, o cuidado para não usar plantas exóticas que possam se tornar invasoras, a utilização de inseticidas naturais, a compostagem para a adubação e a utilização de espécies nativas, com certeza contribuem para o equilíbrio do planeta. É possível sim criar jardins repletos de beleza sem agredir a natureza. Afinal, como dizia o poeta: beleza é fundamental! E quando a beleza vem acompanhada do respeito ao planeta é genial.

Projeto e execução em Chácara Residencial por Ciliane - Foto Arquivo Pessoal
Projeto e execução em Chácara Residencial por Ciliane – Foto Arquivo Pessoal
– E para finalizar, como você acha que o paisagismo pode contribuir para transformar as cidades brasileiras?
Não existe qualidade de vida sem o contato com a natureza. Infelizmente a maioria das cidades cresce sem um planejamento adequado. Para viver bem é preciso sentir-se bem dentro e fora de casa. As construções pipocam nas cidades sem considerar o entorno. E quando o caos se instala as pessoas se dão conta de que esqueceram alguma coisa. Geralmente o paisagista é chamado para atenuar o impacto causado pelas interferências na paisagem. Quando o paisagismo é levado a sério no planejamento de uma cidade, todos ganham, e o resultado dessa ação se chama qualidade de vida.

Paisagista: Ciliane Raquel Wille Augustin
Ornato Jardins (página no Facebook)
Projeto, Execução e Manutenção de Jardins e Garden Center
Endereço: Rua Roberto Lampe, 73, Rio Negrinho – SC
Telefone: (047) 9146.6718

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