Como fazer bokashi

No bokashi aeróbio, feito em pilhas ou leiras, é normal o aparecimento de fungos de superfície. Deixando a pilha com uma camada algonodosa e branca. Foto de Nate
No bokashi aeróbio, feito em pilhas ou leiras, é normal o aparecimento de fungos de superfície. Deixando a pilha com uma camada algonodosa e branca. Foto de Nate
O bokashi é um composto orgânico, obtido através da fermentação controlada de uma mistura de farelos e tortas vegetais, acrescido ou não de farinhas de origem animal e pós de rocha. É uma antiga técnica japonesa, muitas vezes produzida localmente, e que tem a capacidade de melhorar a fertilidade química e física do solo, assim como a biológica. Ele age, promovendo um desenvolvimento microbiológico saudável, e tem muitas vantagens tais como:
– Recuperação e estímulo ao desenvolvimento de microorganismos e mesofauna do solo, como as minhocas
– Contém e estimula a produção de substâncias bioativas, como enzimas, que favorecem o desenvolvimento das raízes.
– Controle e prevenção de pragas e doenças das plantas
– Fertilização do solo, através de nutrientes quelados e orgânicos, que são liberados gradualmente para as plantas.
– Melhora o pH do solo, corrigindo a acidez
– Melhora nas características físicas do solo, que se torna mais arejado, poroso e tem maior capacidade de retenção de umidade.
– Recuperação de solos degradados

Em outros países, é possível encontrar kits para produção de bokashi caseiro. Como neste, que vem balde para fermentação, ferramenta para compactar e mistura pronta para fermentar. Foto de Pfctdayelise
Em outros países, é possível encontrar kits para produção de bokashi caseiro. Como neste, que vem balde para fermentação, ferramenta para compactar e mistura pronta para fermentar. Foto de Pfctdayelise
Hoje vamos aprender como fazer esse adubo fantástico para utilizarmos em nosso jardim, horta, pomar, ou até mesmo nos vasinhos que enfeitam nossa casa. A idéia deste artigo não é mostrar a forma mais tradicional de bokashi, aquela utilizada por agricultores e realizada em grande escala, mas em fazer uma receita caseira, que mesmo quem more em nos centros urbanos possa realizar, com produtos fáceis de encontrar. Vamos lá?

O ingrediente mais complicado na produção do bokashi é o fermento. Ele é um mistura de bactérias e fungos benéficos, que vão promover a fermentação controlada da matéria orgânica que escolhermos. O uso dos microorganismos corretos é fundamental no processo, visto que objetivamos uma fermentação essencialmente láctica, que produz ácidos. Temos duas opções de fermento, que são:

EM

O EM pode ser encontrado pronto, na forma líquida. Foto de Nicholas Chan
O EM pode ser encontrado pronto, na forma líquida. Foto de Nicholas Chan
Nome abreviado de “Microorganismos Eficazes”. Um composto formado por diferentes espécies de microorganismos degradadores que coexistem em meio líquido. Os principais grupos de microorganismos que formam o EM são as leveduras, os actinomicetos, as bactérias lácticas e bactérias fotossintetizadoras. O EM pode ser comprado pronto, sendo que no Brasil, é comercializado pelo nome de Embiotic, pela Korin. Mas é possível produzi-lo em casa também, através da seguinte forma:

– Cozinhe 800 gramas de arroz branco em água, sem sal, óleo ou tempero.
– Espalhe o arroz em uma bandeja e cubra com uma tela fina.
– Coloque a bandeja sob às árvores ou arbustos do jardim ou pomar, de forma que fique protegido do sol. Pode funcionar também colocando-se no forro da casa.
– Cubra a bandeja com as folhas mortas que cobrem o solo.
– Após 10 a 15 dias observe o arroz, que deverá estar com diversos bolores.
– Descarte os bolores escuros, pretos, marrons, cinzas. Colha os bolores brancos e de cores vivas.
– Coloque os bolores coloridos em um balde grande com 9 litros de água sem cloro e 1 litro de melaço ou açúcar mascavo. Misture bem.
– Divida a mistura em 5 garrafas pet de 2 litros e tampe.
– Aguarde de 10 a 15 dias, abrindo as tampas a cada dois dias para a saída dos gases. Quando a produção de gás cessar, é por que a mistura está pronta.

O EM pode ser armazenado por até um ano, em local, seco, fresco e ao abrigo da luz. Ele possui cor alaranjada e tem um cheiro doce e ácido. Se estiver com cheiro de podre, descarte. Além de entrar na composição do bokashi, você pode utilizá-lo para sua compostagem convencional. Ele acelera muito o processo de decomposição.

Kefir

Os grãos de kefir. Foto de luxomedia
Os grãos de kefir. Foto de luxomedia
É uma cultura de microorganismos, utilizados para fermentar produtos lácteos e que tem origem no Cáucaso. Ele também possui diferentes tipos de bactérias e leveduras que convivem harmoniosamente. E cada um possui uma função diferente. Além de produzir uma deliciosa bebida láctea, o kefir também pode ser aproveitado na produção do Bokashi. Você pode conseguir o kefir através deste site (http://probioticosbrasil.wix.com/), encontrando doadores em diversos lugares. Ou procurar pela pastoral da saúde, da Igreja Católica. Não esqueça de pedir pelo kefir de água, ao invés do kefir de leite.

Para utilizar o kefir no bokashi, é preciso antes multiplicá-lo e ativá-lo. Dissolva 3 colheres de açúcar mascavo para cada litro de água e adicione 3 colheres de grãos de kefir. Deixe fermentar por uma semana. Coe a mistura e utilize a água na produção do bokashi.

Além do fermento, outros ingredientes são importantes no bokashi, mas estes podem ser variáveis, de acordo com a disponibilidade e preço locais. No entanto, a proporção deve ser respeitada para uma boa fermentação. Assim, na composição entram de 50 a 60% de farelos de cereais (trigo, arroz, cevada, milho, etc), cerca de 40% de tortas oleaginosas (de mamona, algodão, soja, girassol, etc), até 15% de outras matérias vegetais (cascas, palhas e outros subprodutos), até 3% de farinhas de origem animal (peixe, sangue, ossos) e no máximo 2% de minerais (calcário, pó de rocha, cinzas). Há dois tipos principais de bokashi:

Bokashi (ou bokashi aeróbico):

O farelo ou a torta de mamona, um resíduo obtido pela extração do óleo de mamona, é uma opção interessante para a produção de bokashi. Foto de  Valter Jacinto
O farelo ou a torta de mamona, um resíduo obtido pela extração do óleo de mamona, é uma opção interessante para a produção de bokashi. Foto de Valter Jacinto
Produzido em condições de aerobiose, ou seja, com a presença de ar. Nesta opção, o material é deitado em fileiras, coberto para evitar a desidratação e revirado diariamente. Aqui as temperaturas podem chegar de 50 a 60°C, e é preciso revirar a mistura sempre que ela se aproximar dessas temperaturas, evitando assim que os nutrientes se percam.

Exemplo de receita:
– 5kg de farelo de trigo ou arroz
– 3,5kg de farelo de soja, algodão ou mamona
– 1,5kg de palhas, cascas ou folhas secas
– 300g de farinha de ossos
– 150g de fosfato natural
– 150g de pó de rocha
– 300g de açúcar mascavo
– Água para umedecer
– 1 litro de Em ou Kefir ativado

Misture todos os ingredientes secos e vá adicionando a água e o fermento, de forma que se formem torrões ao se apertar com a mão. Evite umedecer demais. Forme uma fileira ou pilha com o material em local plano, e protegido do sol. Cubra com um saco de ráfia e revire sempre que aquecer. Geralmente se revira o material diariamente, sempre no mesmo horário. Se necessário, evite o que o material desidrate, regando um pouco ao revirar com um borrifador. Fica pronto em cerca de uma semana.

Kenki Bokashi (ou bokashi anaeróbico):

O bokashi anaeróbio  é fácil de fazer em casa, e não exige muito espaço, podendo ser feito em baldes bem fechados. Foto de Neal Foley
O bokashi anaeróbio é fácil de fazer em casa, e não exige muito espaço, podendo ser feito em baldes bem fechados. Foto de Neal Foley
Produzido na ausência de ar, em embalagens bem fechadas. Atinge cerca de 40°C, e conserva melhor os nutrientes. Leva de 15 a 21 dias para ficar pronto. Seguindo as proporções recomendadas, segue abaixo uma receita base para pequenas quantidades:

– 4,5 kg de farelo de arroz ou trigo
– 1 kg de torta de mamona ou algodão
– 600 g de farinha de ossos
– 500 g de cinzas
– 500 g de palha de arroz ou outros
– 1 litro de EM ou kefir ativados

Você pode tranquilamente fazer essa pequena receita naqueles baldes para alimentos, para 10 litros, com tampa. Forre a parte interna do balde com um saco para lixo forte de 30 litros, sem qualquer furo. Despeje a mistura dos ingredientes, já umedecida e perfeitamente homogeneizada dentro do saco, apertando bem, de forma que não fique nenhuma bolha de ar. Feche o saco hermeticamente, cubra com farelo de arroz ou trigo até a altura da tampa e feche a tampa. Armazene o balde em local fresco, à sombra.

É de suma importância que a mistura não entre em contato com o ar durante o processo fermentativo, o que leva 21 dias. Portanto, nada de abrir para ver o que está acontecendo antes disso. O bokashi pronto tem um cheiro doce e ácido, que lembra silagem, para quem conhece. Da mesma forma que o EM, se estiver cheirando mal, a podre, não deve ser utilizado. Assim que estiver pronto, utilize imediatamente ou desidrate para armazenar. Se deixado aberto, sem uso, vai estragar em contato com o ar. Desidratado, dura até 6 meses.

Além destes, é possível fazer ainda o bokashi de terra, o nitrogenado e o fosforado, como segue:

Bokashi de terra:

– 4 kg de terra do local do plantio (horta, jardim, pomar…)
– 1 kg de terra preta da mata (serve como fermento) ou 1 xícara de EM
– 1 kg de esterco
– 1 kg de farelo de arroz
– 1 kg de quirera (usar preferencialmente grãos impróprios para o consumo, grãos carunchados, etc)
– 400 gramas de farinha de ossos
– 200 gramas de torta de mamona
– 200 gramas de cinzas (sem sal – não utilizar cinza de churrasqueira)
– 1 xícara de fubá de milho, ou amido ou polvilho de mandioca
– 1/2 xícara de açúcar mascavo
– água para umedecer

Bokashi nitrogenado

– 10 kg de terra
– 4 kg de esterco de aves
– 2 kg de torta de mamona
– 2 kg de farelo de oleaginosas (soja, algodão) ou farinha de peixe
– 2 kg de farinha de ossos
– 600 g de farelo de arroz ou trigo
– 1 xícara de EM ou Kefir
– 1/2 xícara de amido de milho
– 1/2 xícara de açúcar mascavo

Bokashi fosforado

– 16 kg de terra
– 4,8 kg de farinha de ossos
– 1,6 kg de esterco de aves
– 600 g de farelo de arroz ou trigo
– 1 xícara de EM ou Kefir
– 1/2 xícara de amido de milho
– 1/2 xícara de açúcar mascavo

Modo de fazer: Essas variações do bokashi são opções aeróbias. Assim o modo de fazer é semelhante. Misture muito bem todos os ingredientes e vá acrescentando água, para que se formem torrões ao se apertar com a mão. Amontoe em formato de pirâmide e revire no terceiro dia em diante, até que o composto fique pronto. Leva de 7 a 15 dias de acordo com a temperatura ambiental.

No próximo artigo você verá quais as melhores formas de utilizar o bokashi em seu jardim e plantas, seja ele comprado pronto ou feito por você. Aguarde.

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